quinta-feira, 19 de março de 2009

Crônica: Mais um Dia de Derrotas

Certo dia tive o prazer de conhecer, no hipódromo de Cidade Jardim, um argentino que veio tentar a vida aqui no Brasil e que, como inúmeros estrangeiros, conseguiu aqui prosperar, adotando assim a nova pátria, sem nunca esquecer as raízes portenhas.
As corridas naquele dia, como muitas vezes ocorre, não estavam rendendo dividendos e páreo após páreo, eu, o argentino e um outro amigo meu, víamos acontecer de tudo, menos um cavalo no qual apostamos cruzar o disco na frente.
Eu e meu amigo já estávamos ficando de cabeça quente com a situação e o argentino havia preferido dar um volta pelo prado.
Quando voltamos a nos encontrar, fizemos a pergunta mágica que todo turfista faz quando encontra um conhecido durante as corridas: “E aí, está acertando?” Para a nossa surpresa, o brincalhão argentino respondeu com o seu carregado sotaque platino: “Mas un dia de derrotas!” A partir de então, não sabíamos se estávamos gargalhando da situação ou do sotaque – tentem imaginar a sílaba – ro – falada de forma bem carregada no “r” e com “o” completamente fechado, como em “forno”.
Isso já haveria valido o dia se não fosse o fato de que continuamos “folgando progressivamente”, como diria Luiz Urubatan Carlos, à bancarrota naquele dia e o tal do “mas un dia de derrotas” ter se transformado numa espécie de bordão do argentino. Ele ia falando que no Turfe ninguém ganha, que os turfistas gostam de perder dinheiro, isso e aquilo e “Mas un dia de derrotas”. Já eu até estava esquecendo que estava perdendo, pois doía a minha barriga de tamanhas gargalhadas que dei naquele dia.
Chegando ao final do dia, nos dirigimos, os três só com o da condução no bolso, até o ponto de ônibus da Lineu de Paula Machado. O ônibus não demorou muito a chegar e, como estávamos “bem balizados” no ponto, conseguimos entrar no ônibus e nos dirigir até os bancos de trás. A “fila de derrotados”, como disse o argentino, estava grande e o motorista demorou até conseguir fechar a porta para que partíssemos. Foi então que entra um rapaz negro, amigo do argentino, no ônibus. Ainda inconformado com a surra que havíamos levado dos cavalos durante toda a reunião, o argentino grita ao seu amigo lá do fundo do ônibus mesmo: “Oh neguinho, mas un dia de derrotas!”.
Meio envergonhado, o tal do neguinho foi caminhando para o fundo do ônibus e lá o argentino lhe explicou que tínhamos perdido tudo. Como ele também não obtivera êxito durante a reunião, o amigo do argentino ouvia a história e, cada vez mais ia ficando sem paciência. Durante a história, o bordão do dia ainda foi repetido uma três vezes e o neguinho cada vez mais irritado. Até que o argentino lhe contou o que ocorrera no último páreo: “Eu achava barbada o’cavalo de tal’, como ele era meio bomba, resolvi fazer uma exata com ele na ponta e todos para a dupla.” “E aí?”, perguntou seu amigo. Qual poderia ser a resposta? “Mas un dia de derrotas! O cavalo não me faz segundo?”.
Isso foi demais para o neguinho que, completamente aborrecido com o refrão que ouvira a viagem inteira, respondeu: “Se você sabia que hoje era mais um dia de derrotas, porque não jogou todos para primeiro e o teu cavalo para segundo?”

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